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Cirurgiões criticam treinamento

By 2 de setembro de 2013 Nenhum comentário

Especialistas em plástica reprovam com veemência convênio que habilitará mastologistas a fazer reconstrução mamária em mulheres que passaram por mastectomia. Entre outras críticas, eles dizem que a capital já tem profissionais suficientes

O novo programa do governo para a reconstrução de mamas de mulheres com câncer despertou a indignação de cirurgiões plásticos da cidade e também de profissionais de outras regiões do país. Há três semanas, 10 mastologistas da rede pública começaram a fazer um curso para aprender a realizar essa operação reparadora em pacientes mutiladas pela doença. Mas a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e especialistas da área questionam duramente a medida, sob a alegação de que os colegas não teriam capacitação necessária para fazer a reconstrução de mamas. A entidade defende que Brasília tem 160 cirurgiões plásticos aptos a atender essas mulheres e que um curso de 200 horas não é suficiente para treinar os mastologistas, o que colocaria em risco a vida das pacientes. O treinamento foi uma medida idealizada pelo GDF para o cumprimento da lei que determina a reconstrução imediata dos seios de pacientes submetidas a mastectomia (leia O que diz a lei).

A capacitação é fruto de uma parceria entre a Sociedade Brasileira de Mastologia com a Secretaria de Saúde da capital. Pelo acordo, o governo oferece as salas de cirurgia e a estrutura da rede pública. Já a entidade, por meio de acordos com a iniciativa privada, disponibiliza o material necessário, como próteses. Os médicos matriculados pagam o salário dos professores contratados para dar as aulas — ministradas durante um fim de semana por mês, ao longo de 10 meses.

O médico Alexandre Mendonça Munhoz, presidente da Comissão Nacional de Reconstrução Mamária da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, é um dos principais críticos do programa. “Não tenho nada contra os colegas mastologistas, pelo contrário, mantenho um excelente relacionamento com eles. Mas do ponto de vista técnico, esse curso é extremamente falho porque não é formativo. São apenas 10 meses de treinamento, com aulas em um único fim de semana do mês. É muito pouco”, comenta o cirurgião, que atua em São Paulo. “Em Brasília, há 160 cirurgiões plásticos membros da Sociedade Brasileira, que passaram por mais de 6 mil horas de treinamento e por provas. Alguns ainda fizeram uma formação extra de 1,8 mil horas, focada unicamente na reconstrução mamária. Já existem profissionais treinados na cidade para fazer esses procedimentos nos pacientes”, acrescenta Munhoz.

O presidente da comissão afirma que os integrantes do curso feito em parceria com o governo local preconizam a colocação imediata de próteses de silicone depois da realização da mastectomia — o que motiva a oposição maciça de cirurgiões plásticos. “Isso representa um risco para os pacientes. Hoje, existem 20 técnicas para reconstruir mama, e a colocação imediata de próteses é a que tem maior índice de complicações, como infecções que podem levar à perda da prótese”, comenta Alexandre Munhoz. “Em 90% das mastectomias por câncer, nenhum cirurgião bem habilitado e bem treinado vai colocar a prótese imediatamente, porque isso pode levar a grandes complicações. A reconstrução é feita em fases”, finaliza o representante da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

Os cirurgiões defendem métodos como a colocação de um expansor temporário, antes da inserção da prótese de silicone. Outra técnica preconizada por esses profissionais é a cirurgia chamada de retalho, em que é feita a transferência de pele e de gordura do abdômen ou da musculatura das costas para o seio (veja arte).

Mutirão

O cirurgião Luciano Chaves, que atua no DF e é vice-presidente nacional da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, também faz críticas ao programa de treinamento de mastologistas. Ele lembra que, entre 2011 e 2012, a sociedade propôs à Secretaria de Saúde a realização de mutirões de cirurgia de reconstrução de mamas. “Em apenas um dia, em março de 2011, operamos 62 pacientes. No ano anterior, apenas 102 mulheres haviam passado pelo procedimento. A partir desse projeto piloto, lançamos o mutirão nacional e, em cinco dias em março de 2012, operamos 554 pacientes em 18 capitais do Brasil. Então, os cirurgiões plásticos brasilienses estão preocupados com essa situação e, de forma voluntária e gratuita, ajudaram a zerar a fila de espera, que era de seis anos”, comenta Luciano.

Ele afirma que foi surpreendido com o anúncio de que mastologistas do DF seriam treinados para fazer reconstrução de mama. “Hoje, existem no Brasil cerca de 1 mil mastologistas, mas não passa de 15 o número de profissionais que vêm realizando a reconstrução de mamas com bons resultados”, acrescenta.

Para o cirurgião plástico Ognev Cosac, há um risco para os pacientes. “Essa carga horária é muito pequena e estão sendo usados pacientes do SUS, que não sabem quem vai operá-los. Nossa preocupação é com os pacientes porque esse curso de capacitação de mastologistas é insuficiente. É um aprendizado feito na porta dos fundos, de forma ilegal, e isso põe a população em risco.”

O que diz a lei – Mastectomia e reconstrução

Em abril deste ano, a presidente Dilma Rousseff sancionou a Lei n° 12.802/2013, que trata sobre a obrigatoriedade da cirurgia plástica reparadora da mama no Sistema Único de Saúde (SUS) nos casos de mutilação decorrentes de tratamento de câncer.

O texto alterou uma lei que vinha de 1999 para determinar que a reconstrução seja feita imediatamente após a mastectomia (cirurgia de retirada da mama), sempre que a paciente tiver condições de saúde de passar pelo procedimento. A lei atual estabelece que, “no caso de impossibilidade de reconstrução imediata, a paciente será encaminhada para acompanhamento e terá garantida a realização da cirurgia imediatamente após alcançar as condições clínicas requeridas.”

Fonte:Correio Braziliense – 30/08/2013

Matéria na íntegra publicada no jornal Correio Braziliense em 30/08/2013

Matéria na íntegra publicada no jornal Correio Braziliense em 30/08/2013