Notícias

Preço menor leva mulheres de manaus à venezuela para realizar cirurgia plástica

By 2 de junho de 2015 Nenhum comentário

Procedimentos estéticos invasivos a custo bem mais barato que no Brasil se sobressaem à segurança das pessoas.

Manaus – Aline Maquiné, 35, amazonense e mãe de dois filhos, juntou R$ 9 mil, por três anos, necessários à realização de um sonho antigo: fazer uma cirurgia plástica e levantar a autoestima. Em seis meses, ela estava com as malas prontas para viajar ao exterior. “Me sinto outra mulher. Pude ter a realização de um sonho que nunca teria condições de realizar no Brasil, pois os valores são altíssimos”, disse.

Aline não é a única. Tássia Camila Gomes, 30, que voltou a Manaus na última sexta-feira após um mês fora do país para a realização de uma lipoaspiração e um preenchimento nos glúteos, planeja retornar em agosto para pôr silicone nos seios. “Queria ter feito tudo de uma vez, mas o médico disse que seria muito dolorido para mim. Fiz meus procedimentos por R$ 2,5 mil. Aqui no Brasil, chegaria a R$ 12 mil ou R$ 14 mil”, revelou.

141

Já a professora roraimense Mara Jeanne Medeiros não revela a idade, mas conta que, após conversar com amigas que consideraram um sucesso cirurgias para renovar o rosto e o corpo, decidiu se submeter a uma lipoescultura, um modelamento dos glúteos com retirada de gordura da papada e braços. O valor? R$ 5,730 mil. “Cheguei na última sexta-feira. Não pesquisei sobre os preços, mas tenho certeza que seria no mínimo cinco vezes mais caro no Brasil”, afirmou.

O que atraem mulheres como Aline, Flávia e Mara para realizar cirurgias estéticas na Venezuela são preços, mais baixos que no Brasil.

O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), João Prado Neto, disse que nada impede que os brasileiros busquem fazer as operações na Venezuela, mas eles precisam estar atentos se os valores cobrados pelos procedimentos garantem a qualidade e segurança que esse tipo de intervenção exige. “Se o paciente entende que lá vai ser bem atendido e por valores mais baixos, não há problema. A questão, tanto lá quanto aqui, é que é difícil encontrar procedimentos de qualidade com valores menores”, comentou.

A procura de médicos não habilitados na especialidade de cirurgia plástica e o uso de próteses com procedência desconhecida são algumas preocupações destacadas pelo especialista quando o paciente realiza um procedimento fora do País. “Quando se está comprando um celular ou um carro, visitamos pelo menos dez concessionárias ou lojas para pesquisar o preço porque os produtos são os mesmos. Quando se trata de prestação de serviços, isso muda radicalmente”, lembra João Prado.

Para atuar como cirurgião plástico, um médico precisa estudar por 11 anos, sendo seis anos de graduação em medicina e cinco anos de residência médica em cirurgia plástica.

A realização de medidas preventivas como os exames pré-operatórios e o acompanhamento pós-cirúrgico é essencial para que o paciente se submeta a uma cirurgia de forma segura. Mas, segundo Prado Neto, mesmo no Brasil médicos não habilitados descumprem a exigência que, no caso de pacientes jovens, com boa saúde e interessadas em se submeter a uma rinoplastia, podem compreender um exame de sangue. Entre pacientes mais velhas, é necessário realizar uma bateria de análises laboratoriais. “Cada tipo de procedimento exige um cuidado diferente. No pós-operatório de uma plástica de abdômen, por exemplo, o tempo mínimo para que a paciente viaje de volta é de 15 dias”, informou.

Efeito colateral
Trombose e embolia pulmonar são algumas das complicações que podem acometer um paciente recém-operado e que viaja de avião, segundo o especialista, devido à influência que a pressão exerce na circulação sanguínea.

Em julho de 2011, uma brasileira morreu em Corumbá após se submeter a três cirurgias plásticas em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. A mulher, de 56 anos, teve complicações logo após a operação e ao ser transferida para um avião com UTI até Rondônia, onde morava, morreu no aeroporto internacional de Corumbá.

I

Em janeiro deste ano, uma roraimense também morreu após se submeter a uma cirurgia plástica, na Venezuela. Na época, a médica que realizou a cirurgia informou que o uso excessivo de um xarope para tosse levou a paciente a um quadro de arritmia cardíaca.

Para ter capacidade de atender os pacientes em casos de complicação, o presidente da SBCP destaca que é obrigatório que a clínica tenha um complexo hospitalar adequado às necessidades, composto por aparelhos de anestesia, monitores multiparamétricos que monitoram a frequência cardíaca, entre outros. “É preciso ter dentro do centro cirúrgico equipamentos semelhantes aos de uma UTI para que haja condições de manter o paciente até que ele seja encaminhado a um hospital”, disse.

As mulheres ouvidas pelo D24AM não relataram sobre as condições e nem sobre o atendimento pelos médicos venezuelanos.

Impotência
A frente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas (Cremam), o médico José Bernardo Sobrinho afirma que mesmo sendo de conhecimento do órgão casos de pacientes do Amazonas que apresentaram complicações após se submeterem a cirurgias plástica na Venezuela, o Cremam não pode fiscalizar o exercício de médicos de outros países. “Pelo código do Conselho, não podemos fiscalizar médicos de outros Estados e nem de outros países”, disse.

O presidente disse ainda que a orientação do conselho é que as pacientes evitem fazer cirurgias na Venezuela, “pois não vale a pena o risco”. Ainda segundo Sobrinho, os preços de uma boa clínica na Venezuela são semelhantes aos de uma clínica no Brasil.

Ele explicou que o número de procedimentos realizados pela paciente de uma vez só podem levar à morte e que cirurgias com duração de seis a sete horas têm risco maior de complicações. O costume das mulheres de “se comportarem como se estivessem em um supermercado”, ao optarem por realizar vários procedimentos em uma única cirurgia, também é criticado pelo presidente da Regional Amazonas da SBCP, o médico cirurgião plástico Rui Rodrigues. “Para se ter uma ideia, eles cobram R$ 5 mil e elas fazem cirurgia de mama e operam o nariz. Elas chegam no dia seguinte, operam e voltam. Tive uma paciente que operou o abdômen, pôs silicone nos seios e no dia seguinte teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Essa mesma pessoa, durante uma compressa na barriga, sofreu queimaduras. Em outro caso, as próteses de silicone se uniram após o implante eliminando o espaço entre os seios da paciente”, relatou Rui Rodrigues.

No Brasil, só as próteses de silicone vendidas pelos representantes custam, em média, R$ 2,3 mil, segundo o médico.

De acordo com Rodrigues, do ano passado até agora entre quatro e cinco pacientes que se submeteram a cirurgias plásticas e apresentaram complicações já procuraram orientação em seu consultório. A orientação, nestes casos, segundo ele, é encaminhar a paciente ao médico que realizou o procedimento. “Algumas fazem a cirurgia e querem tirar os pontos aqui, atribuição que compete ao médico que realizou o procedimento lá”, revela.

Rodrigues conta ainda que existem aliciadores espalhados por salões de beleza e que ganham comissões para atrair pacientes. “Existe uma senhora que circula pelos salões de beleza da cidade só para aliciar futuras clientes em troca de comissão”, disse.

Justiça brasileira não ampara serviços contratados no exterior
É essencial o cuidado para a garantia da boa saúde dos pacientes e a situação não é diferente quando se trata dos direitos legais dos consumidores que recorrem a clínicas de estética, na Venezuela. De acordo com o presidente da Comissão de Direito do Consumidor da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Amazonas (OAB/AM), Saulo da Costa, procedimentos contratados por brasileiros diretamente no exterior e que desagradaram o cliente não são amparados pela Justiça brasileira.

“É preciso saber primeiro se a pessoa contratou o serviço com um representante da clínica aqui no Brasil ou se ela fez tudo no outro país. Caso não tenha havido a imagem do atravessador, ela precisa constituir advogado lá e acionar a Justiça venezuelana”, esclareceu.

Para evitar aborrecimentos, ele orienta que os pacientes procurem conhecer a legislação do país sede da prestadora de serviços.

118-bx

No Brasil, ações judiciais por má prestação de serviços de cirurgia plástica possibilitam ao consumidor lesado o pedido de indenização por danos morais e materiais. “Moral pelo abalo psicológico e material pelo gasto que ela teve com o procedimento”, informou.

Ações do tipo levam, em média um ano, até a sentença.

Venezuela concentra vencedoras em concursos de beleza mundial
Considerado o país oficial dos concursos de beleza, a Venezuela concentra o maior número de vencedoras no concursos Miss Mundo. De 63 edições, o país conquistou seis coroas, a primeira delas em 1955 e a última em 2011.

No Miss Universo, sete venezuelanas já foram coroadas e seis no Miss Internacional.

Incentivado desde muito cedo, o padrão ideal de estética e comportamento exige que as mulheres ainda crianças se dediquem em cursos de etiqueta, maquiagem e até de poses para fotos.

A prática de exercícios físicos para que estejam apresentáveis durante desfiles em trajes de banho também faz parte do conteúdo ensinado às adolescentes e até crianças de 4 anos matriculadas em escolas especializadas na Venezuela.

Para atingir o critério de beleza imposto pela organização do concurso Miss Venezuela não é rara a realização de cirurgias plásticas pelas candidatas, assim como a ocorrência de desmaios durante dietas, a fixação de plásticos na língua para o impedir a ingestão de alimentos sólidos.

Em 2013, coletivos feministas e ciclistas protestaram contra a imposição estética e os ‘antivalores’ que acusam o concurso de promover.

No ano passado, em entrevista a uma série da rede britânica BBC, a candidata ao concurso Miss Venezuela, Meyer Nava, moradora de um bairro pobre de Caracas, revelou ter gastado R$ 30 mil em cirurgias plásticas para modificar o nariz e os seios.

Também adepta da atadura costurada na língua, Mayer afirmou estar perdendo peso mais rápido, mesmo comendo todo tipo de alimento. “É a mesma coisa, só que liquefeito”, contou.

Lançada em 2009, a atadura desenvolvida por um cirurgião plástico de Beverly Hills (EUA) é uma febre na Venezuela. Com a dieta líquida forçada, o paciente emagrece geralmente, mas traz também dificuldades de fala e para dormir. O procedimento custa US$ 150 em Caracas.

Fonte: D24am
Autor: Annyelle Bezerra
Crédito das fotos:
Best in Plastics (via Flickr / CC BY ND NC 2.0)
Alex E. Proimos (via Flickr / CC BY NC 2.0)
Chris Potter (via Flickr / CC BY NC 2.0)