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Entrevista: Ricardo Baroudi, o 10° presidente eleito da SBCP

By 14 de dezembro de 2016 Nenhum comentário

BREVE ANÁLISE DA EVOLUÇÃO DA CIRURGIA PLÁSTICA NO BRASIL PELA CARREIRA DE RICARDO BAROUDI

No mês em que se comemora o Dia Nacional do Cirurgião Plástico e os 68 anos de fundação da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), o décimo presidente eleito da SBCP e um dos pioneiros da especialidade no país, Dr. Ricardo Baroudi, fala um pouco de sua trajetória na especialidade e faz uma breve análise da evolução da cirurgia plástica no país, respondendo questões da atualidade como a formação do cirurgião plástico e a invasão da especialidade por não especialistas. Confira a entrevista abaixo.

Foto Dr. Baroudi

SBCP – O senhor se formou há quase 60 anos. Na sua visão o que mudou nessas seis décadas no perfil do médico cirurgião plástico?

RB – Apesar da Medicina ser uma ciência de verdades transitórias, a sua linha de evolução sempre foi e tem sido ascendente em todas as especialidades.  Se formos comparar especificamente a Cirurgia Plástica, quando nos graduamos nos idos de 1957 aos limites atuais da especialidade, os ganhos foram e tem sido contínuos e incontáveis.  Atualmente ainda, analisando a qualidade dos  resultados obtidos nos numerosos e diversos  tipos de cirurgias,  é também quase incomparável com base  na evolução natural das técnicas e nos limites  de cobrança por parte das(os) pacientes.  Um dos pontos fundamentais nesta evolução foi a anestesia e a monitoragem dos pacientes, permitindo maior segurança transoperatória na realização de cirúrgicas combinadas e a imperativa necessidade de equipes cirúrgicas treinadas para realizar estes procedimentos.

Outra evolução a ser registrada é a receptividade da cirurgia estética no cenário social, quando o “tabu” deste tipo de cirurgia passou a ser “status”, associado a mostrar o que é belo e eliminar o oposto.  Este aspecto teve maior repercussão social nos países tropicais e mais ainda nas áreas próximas ao litoral, onde a exposição do corpo é maior comparada com os que vivem nas montanhas, nas regiões do interior dos países e nos de clima temperado.

Ainda nesta linha evolutiva, a desinibição de falar e mostrar os resultados das cirurgias determinou uma reação em cadeia para as pessoas que desconheciam os procedimentos, as que estavam no limite de querer ser operadas e as que aguardavam os resultados de outras operadas para decidirem ou não a se submeterem a estes tipos de cirurgias. Cremos que este comportamento não deverá mudar em longo prazo, salvo algo melhor que a cirurgia plástica estética possa oferecer.

SBCP – Em relação a formação acadêmica, houve evoluções?

RB – Nas últimas décadas a formação acadêmica  tem evoluído continuamente, mediante critérios táticos,  técnicos e didáticos para a preparação de cirurgiões plásticos jovens e qualificados para exercer a especialidade.  Foram criados competentes serviços credenciados pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica em todo o país, em que o bacharel em medicina durante três anos como residente, depois do treinamento em Cirurgia Geral, recebe treinamento em tempo integral  para estar em condições de exercer a especialidade mediante exame de qualificação  no final do mesmo.

SBCP – Quais foram os maiores desafios enfrentados nesses anos de profissão?

RB – Como os demais médicos, cirurgiões plásticos também  passam por treinamentos específicos para as áreas de atuação.  Desde o início de suas atividades até a aposentadoria, prevalece a aplicação prática dos conhecimentos adquiridos e a seu constante aprimoramento na sua qualificação técnica para a obtenção de resultados sempre melhores dos apresentados nas condições pré-operatórias.  Não tem sentido resultados aquém. É importante e imperativo que os pacientes saibam os limites e possibilidades dos resultados antes de uma cirurgia, mediante informações precisas por parte do Cirurgião e a possibilidade de haver retoques quando necessário. A relação médico-paciente deve ser mantida diante de intercorrências e mesmo diante de complicações.

Particularmente na Cirurgia Plástica Estética, ninguém se submete a um procedimento para ficar igual ou pior do que estava: a expectativa é melhorar sempre, porém, dentro de critérios apresentados pelo profissional responsável para evitar qualquer ansiedade além dos limites prometidos.

Durante os anos de atividade profissional passamos por três períodos distintos e interligados quanto à postura profissional diante das pacientes: quantitativo, qualitativo e o seletivo.  As palavras são autoexplicativas e aplicadas à grande maioria dos Cirurgiões Plásticos.

Ainda sobre o assunto, a tendência é a de sermos selecionados pelos pacientes diante dos resultados por eles observados nas pessoas de suas relações. Os maiores desafios foram agir com competência e dignidade, atributos nem sempre presentes na nossa rotina profissional, pois, quando nosso dia a dia é lidar com a vida humana , muitos quesitos algumas vezes adversos, se somam à nossa competência.

SBCP – E quais foram suas principais conquistas?

RB – A minha prioridade sempre foi trabalhar na especialidade, juntando atividades científicas e cirúrgicas, combinando ambas de forma a contribuir com publicações em Livros e Revistas nacionais e estrangeiras. Chegamos  aproximadamente a  140 publicações  , além de um livro integralmente escrito por nós sobre Cirurgia do Contorno Corporal. Paralelamente fui duas vezes presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, presidi três congressos internacionais e fui editor da Revista Brasileira de Cirurgia Plástica.

SBCP – Hoje temos visto muitos não especialistas realizando procedimentos de cirurgia plástica. Como o senhor enxerga essa invasão da especialidade?

RB – Nos tempos idos , chamávamos especialistas de várias áreas para participarem de certos tipos de cirurgias combinadas com a plástica que iríamos realizar nas pacientes.  Otorrinos, oftalmologistas, ginecologistas, cirurgiões gerais, ortopedistas, etc., que realizavam o seu trabalho e eram responsáveis pelo seu tratamento.  As pacientes pagavam diretamente a estes médicos. Por exemplo, os otorrinos eram os responsáveis pela parte funcional do nariz corrigindo o septo e os cornetos melhorando a respiração e nós na plástica nasal para fins estéticos.

O tempo passou e lentamente estes especialistas aprenderam a fazer estas plásticas e simplesmente continuam nesta rotina atualmente.  Não haverá retorno ao antigo sistema de combinar especialistas diversos de acordo com a patologia específica. Desconhecemos os aspectos legais e éticos destes procedimentos.  O tempo determinará até quando isto vai ocorrer e até quando o Conselho Federal de Medicina irá assumir o teor deste assunto e definir a conduta final.

SBCP – Que recado o senhor gostaria de passar para os novos cirurgiões plásticos, que estão começando a carreira agora?

RB – A Cirurgia Plástica é essencialmente artesanal em particular a ligada a estética , onde o compromisso profissional   está vinculado ao percentual de melhora  prometido antes da cirurgia.  Mesmo sem nenhuma complicação, quando este índice não é atingido, a cobrança por partes dos pacientes pode variar e muito. A relação médico-paciente pode sofrer alterações pouco previsíveis em extensão e profundidade, articularmente diante de intercorrências de problemas que exigem revisões cirúrgicas e casos de resultado aquém do prometido ou combinado no pré-operatório.

A documentação científica é imperativa no pré e no pós-operatório dos casos operados para comprovação real sobre o que foi combinado antes da cirurgia.  Aparelhos de filmar no pré, trans e pós-operatório são altamente indicados para comprovação científica e para fins legais.   Atualmente existem tipos de filmadoras adaptadas na cabeça do cirurgião que oferece condições de documentar todas as fases operatórias, além de permitir separar fotografias que possam ser usadas para vários fins.

Outro detalhe, não menos importante, é o trabalho do cirurgião com uma equipe fixa de assistente(s) e instrumentador(es)  e, se, possível de anestesistas, de acordo com o tempo e o tipo de cirurgia . Altamente recomendável a troca de luvas da equipe e do campo operatório a cada duas horas.

Para concluir, existem três tipos básicos de cirurgiões plásticos: os professores que se dedicam ao ensino da especialidade na área científica, publicando livros e centenas de artigos (porém nem sempre com tanto tempo hábil para usar o bisturi; O segundo grupo é o inverso: gostam de operar, porém, não gostam ou não têm tempo para escrever, publicar ou participar de congressos da especialidade. O terceiro é uma composição dos dois tipos de cirurgiões: os que operam e publicam, cumprindo pesada agenda. Pertenci a este grupo, o qual recomendo aos jovens.