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Cirurgia Plástica: desconfie de propagandas ostensivas

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Secretário da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica afirma que há inversão de valores, promovida por mídias sociais

Por Renata Reis, Gazeta de Limeira

A morte da bancária Lilian Calixto (46), na semana passada, após um procedimento estético em um apartamento na
Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, levanta uma série de questionamentos e deve chamar a atenção principalmente daqueles que querem mudar o corpo a qualquer custo.

A situação remete à reflexão, em primeiro lugar, sobre a perda de uma vida, atraída por ostensiva publicidade nas redes sociais, por um médico conhecido como “Dr. Bumbum”, que não era especialista e realizou o procedimento, com substância perigosa, em local inadequado. O PMMA (polimetilmetacrilato) usado causou complicações em pelo menos 17 mil em São Paulo, apenas em 2016,
estima uma pesquisa.

1 – Ganhou repercussão o caso da mulher que morreu após aplicação de polimetilmetacrilato (PMMA). Que substância é esta? Quantas outras pessoas Brasil afora o sr acredita que se arriscam com produtos como este?

R: Polimetilmetacrilato é um polímero sintético, grosso modo, microesferas de acrílico, que a despeito dos múltiplos alertas científicos da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e Conselho Federal de Medicina (CFM), ainda segue sendo comercializado com aval da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Pesquisa bioestatística realizado pela Regional SP da SBCP, em 2016, restou estimado que 17mil pacientes apresentaram complicações advindas da utilização de PMMA. O baixo custo do produto, é fomento de utilização do produto, sobretudo em grandes volumes.

2 – Como a classe vê a exposição e facilitação dos procedimentos estéticos por meio das redes sociais? O “dr. Bumbum” tinha milhares e milhares de seguidores e atraiu a atenção da paciente que morreu.

R: É lamentável que ocorra uma tragédia de tamanha monta, uma vida ceifada (como o caso que vitimou paciente, amplamente divulgado pela imprensa esta semana no Rio de Janeiro), para que a sociedade e os órgãos oficiais investidos de poderes para fiscalização da medicina, se sensibilizem e despertem para a periculosidade de abusos de publicidade detratamentos estéticos, sobretudo em mídias sociais. Embora a publicidade médica seja regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina (Resoluções CFM nº 1974/2011 e 2126/2015), oportunistas se valem da má fiscalização, e se apresentem de modo midiático e teatral, promovendo tratamentos estéticos de modo comercial, onde desavisados pacientes se tornam mero objeto de mercancia. Via de regra, estes profissionais aéticos, se apresentam como de capacidade e condutas ilibadas, verdadeiramente vendendo resultados ilusórios. Agrava-se o fato de muitos destes profissionais de saúde, entre eles médicos, não possuírem qualificação (formação) atestados por Título de Especialista outorgado pela Associação Médica Brasileira (AMB), Conselho Federal de Medicina (CFM), Ministério da Educação, e Sociedades de Especialidade, no caso a Dermatologia (Sociedade Brasileira de Dermatologia) e Cirurgia Plástica (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

Há uma inversão de valores, promovida por mídias sociais. Um médico não é admirado e procurado por sua competência científica, capacidade técnica, qualificação profissional e respeitabilidade, mas sim pelo número de “likes” e seguidores de suas mídias sociais. É preciso repensar este comportamento social, em prol da segurança da população.

3 – É verdade que as selfies fez aumentar a procura por procedimentos estéticos no rosto?

R: Evidente que estamos aqui a falar conjecturalmente, posto que não existem  análises estatísticas que atestem este comportamento. Entretanto, a prática médica, em áreas estéticas, demonstra que este comportamento social de “ditadura da beleza” que estamos vivendo, tem trazido impacto no comportamento psico-social de muitos pacientes. Muitos chegam ao consultório de cirurgiões plásticos acreditando que tratamentos médicos se assemelham a transformações mágicas. Outras vezes, a distorção de análise de sua imagem, calcada em “selfies” geram angústia e ansiedade extremas, e como todo radicalismo, culmina em obsessão e transtornos maiores, via de regra difíceis de serem atendidos em tratamentos estéticos (cirúrgicos ou não).

É importante que se diga que tratamentos estéticos cientificamente reconhecidos, e de atuação da cirurgia plástica e dermatologia, pendem de um diagnóstico e conduta médica, como em toda a medicina. O conceito de saúde, preconizado pela Organização Social de Saúde é “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”.

Assim, não se pode admitir a banalização de tratamentos estéticos reconhecidos, como se fossem frivolidades.

4 – Quais os procedimentos estéticos mais procurados entre as mulheres e entre os homens atualmente?

R: Os procedimentos estéticos podem ser cirúrgicos, minimamente invasivos, ou clínicos. Os cirúrgicos mais realizados no Brasil atualmente são os implantes mamários (próteses de silicone), lipoaspiração e rinoplastias. Com o desenvolvimento de técnicas minimamente invasivas (toxina botulínica, preenchedores faciais com ácido hialurônico, fios e técnicas de suspensão facial) as cirurgias de rejuvenescimento facial foram proteladas, embora seus resultados ainda sejam os mais notáveis e duráveis. Os tratamentos clínicos são de amplo arsenal, com o avanço tecnológico dos cosméticos e cosmecêuticos.

“Nunca se deixar levar por modismos ou mídias sociais. Desconfie de publicidade ostensiva”.

Dênis Calazans
Secretário da SBCP

5 – Qual é o passo a passo correto e seguro desde o momento em que uma pessoa decide passar por um procedimento estético até a efetiva realização? (como é feita avaliação inicial, quais exames são feitos, quais cuidados preparatórios e ambiente adequado para os procedimentos)

R: Reiteradamente a SBCP se pronuncia sobre estas recomendações.

A primeira e mais importante: sempre buscar um profissional qualificado, um médico portador de Título de Especialista (nos moldes já ditos, na resposta da pergunta 2), membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e/ou Sociedade Brasileira de Dermatologia. Embora estes médicos possuam características profissionais personalíssimas, o Título de Especialista lhes assegura formação, capacitação e habilitação para práticas médicas seguras e reconhecidas cientificamente. Estes médicos terão competência para identificar, diagnosticar e indicar a melhor conduta para cada caso.

Segundo: nunca se deixar levar por modismos ou mídias sociais. Desconfie de publicidade ostensiva de médicos ou profissionais da área de saúde, sobretudo os grupos de whatsapp, instagram e facebook, de pessoas que publicam reiterados elogios e fotos de resultados cirúrgicos de determinado profissional. Atrás destas publicações, via de regra, se escondem profissionais aéticos, tecnicamente sofríveis, ávidos por angariar pacientes por puro interesse financeiro, e que se valem destes artifícios de imposição profissional, que findam sendo verdadeiras armadilhas para desavisados pacientes.

Terceiro: verificar as condições sanitárias e recursos onde tratamentos serão realizados. Qualquer procedimento invasivo deve ser realizado em estabelecimentos de saúde com as devidas licenças sanitárias, e preparados para eventuais emergências. Um exemplo típico de irregularidade e periculosidade são as lipoaspirações realizadas em consultórios de profissionais de saúde.

Quarto: seguir criteriosamente as recomendações médicas, e a manutenção de canais de comunicação com o médico assistente a fim de dirimir dúvidas e/ou relatar ocorrências não previstas.

6 – Quando uma pessoa decide submeter-se a um procedimento estético, o que deve ser ponderado, pois o que se vê, muitas vezes, é a necessidade de ficar “belo” a qualquer custo.

R: Um médico qualificado saberá identificar os comportamentos obsessivos de pacientes que esperam muito mais do que a técnica empregada possa lhes oferecer. Estes pacientes devem ser cuidadosamente trabalhados antes da decisão por determinado tratamento, a fim de que a expectativa exacerbada não seja um problema de frustração posterior, agravando ainda mais a percepção de insatisfação inicial.

7 – Quais os riscos da realização de um procedimento estético por um médico que não tenha formação em cirurgia plástica? É crescente invasão da especialidade por não especialistas?

R: O Brasil vive atualmente um preocupante e silente movimento. O número excessivo de escolas médicas entregando ao mercado aproximadamente 27.000 médicos por ano.

A medicina avançou, se aprimorou tecnológica e cientificamente, entretanto seguimos (os médicos) regidos por uma Lei Federal de 1957, em que outorga a médicos, recém formados ou não, direito de atuar em qualquer área da medicina, como se tivesse em seu diploma um mandado ilimitado. É um desalinho inimaginável tão grande, que seria o mesmo que alguém permitir um competente ginecologista realizar uma cirurgia cardíaca, ou uma neurocirurgia. Como a estética é um atrativo financeiro, muitos incautos profissionais se apresentam “travestidos” de dermatologistas e cirurgiões plásticos, promovendo barbáries como as noticiadas pela imprensa esta semana no Rio de Janeiro.

A SBCP sempre primou pela excelência na qualificação e formação dos cirurgiões plásticos brasileiros, motivo pelo qual a Cirurgia Plástica brasileira é cientificamente respeitada mundialmente por sua excelência e produção científica. Desta forma, desde 2012 que a SBCP protesta formalmente junto ao Conselho Federal de Medicina e Poder Legislativo, a edição de normas legais que assegurem o exercício de especialidades de alta complexidade (exemplo: Cirurgia Cardíaca, Neurocirurgia, Cirurgia Plástica, e outras que demandem mais de 5 anos de especialização) exclusivamente aos portadores de Título de Especialista na área.

Não bastasse os médicos aventureiros, que realizam tratamentos estéticos sema devida qualificação, outros profissionais da saúde se arvoraram ao direito de mesmas práticas. Com o respeito que devotamos a outras áreas da saúde, entendemos que atos médicos devem ser realizados por médicos, assim como cada profissional, em sua área para qual se formou academicamente. O problema tomou proporções tão preocupantes, que após esgotadas as tentativas diplomáticas e conciliadoras de sensibilizar estas classes profissionais, só nos restou a Judicialização da questão, a fim de garantir a segurança da população. Em recente decisão da Justiça Federal do Estado do Rio Grande do Norte, reafirmada por instâncias superiores (Tribunal Regional Federal e Superior Tribunal de Justiça), ficou determinado (por força liminar) a suspensão de normativa que outorgava poderes de realização de toxina botulínica e preenchedores faciais, por odontólogos.

8 – Por meio de quais canais é possível obter esclarecimentos seguros,
inclusive sobre os profissionais?

R: Portais de internet dos Conselhos Regionais de Medicina (www.cremesp.org.br); Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (www.cirurgiaplastica.org.br); Sociedade Brasileira de Dermatoloia (www.sbd.org.br).

Dr. Dênis Calazans
Secretário

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